Artigo: O retorno das aulas presenciais em uma universidade de pesquisa

Mauro Bertotti, professor do Instituto de Química (IQ) da USP

Mauro Bertotti – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Durante a pandemia causada pelo sars-cov-2, as atividades na USP foram seriamente afetadas, mas algumas delas não foram paralisadas. Por exemplo, o processo de seleção para ingresso na graduação ocorreu de maneira organizada e presencial via Fuvest e Enem, assim como os relativos à pós-graduação, nesse caso gerenciados de modo virtual, via de regra. As pesquisas foram certamente prejudicadas pelos longos períodos de fechamento dos vários campi, mas as atividades têm ocorrido segundo protocolos de segurança elaborados em cada unidade universitária e de acordo com cronogramas específicos. O mesmo vale para as atividades administrativas e técnicas, que têm sido responsavelmente exercidas de modo remoto e, mais recentemente, presencialmente, por servidores dedicados e cientes de que a instituição deve manter seu funcionamento segundo normas de segurança rígidas.

As consequências mais agudas da pandemia serão sentidas pelos alunos de graduação, mesmo que em níveis variados. O rompimento do elo presencial com a instituição vai causar graves prejuízos para a formação acadêmica de todos os alunos, sendo que alguns deles ainda não conhecem as instalações da USP. Apesar dos louváveis esforços dos docentes para a rápida implementação de atividades virtuais, as quais foram significativamente aperfeiçoadas durante a pandemia, não há como substituir atividades presenciais pelas remotas sem perda de qualidade.

A aprendizagem dos alunos ocorre por interações entre professores, colegas e os conteúdos, e há fartos indícios de que o processo é mais eficiente quando ele é ativo, envolvente e projetado em um ambiente que favorece o intercâmbio de ideias. Aulas remotas podem, em condições muito especiais, conduzir à aprendizagem com as características mencionadas. Entretanto, é na sala de aula convencional que os benefícios associados ao uso de equipamentos especializados, à habilidade de observação e aquisição de informações sensoriais e ao compartilhamento de espaço com colegas são mais bem aproveitados. É neste ambiente que os alunos podem exercitar melhor a argumentação verbal sobre elementos de discussão, ou seja, formatam a personalidade para sobreviver em um mundo cada vez mais diverso e competitivo.

No caso de disciplinas com componente prático, os problemas são ainda maiores, não somente pelo fato de o aluno não ter contato com aparelhos, técnicas e procedimentos experimentais, mas principalmente pela falta de oportunidade de vivenciar a construção da ciência em um ambiente de pesquisa. Em uma aula experimental ideal, o estudante não segue somente um roteiro, mas também tem a oportunidade de aguçar sua curiosidade, criar hipóteses, obter dados e elaborar conclusões. Tais níveis cognitivos mais elevados e vinculados ao exercício do método científico só podem ser alcançados no modo presencial.

A vida universitária não se resume às atividades acadêmicas associadas à aquisição de conhecimentos. Uma universidade de pesquisa oferece oportunidades para os alunos participarem de atividades extracurriculares, como a iniciação científica, além de outras com características educativas, artísticas e esportivas.

As atividades extracurriculares são realizadas em espaços nos quais os alunos se reúnem, discutem ideias e questões pertinentes, e atingem objetivos comuns. Nestes ambientes, os alunos se sentem confortáveis ​​uns com os outros, e o aprendizado e o desenvolvimento são aprimorados. Por meio de atividades extracurriculares, eles frequentemente interagem com pares que possuem interesses semelhantes, proporcionando integração social no âmbito universitário e influenciando o desenvolvimento afetivo e cognitivo, bem como o comportamento. Como resultado, os alunos aprendem a negociar, se comunicar, gerenciar conflitos e liderar processos, ou seja, veem seus anos de faculdade como uma experiência positiva e sentem que são uma parte vital da instituição. À medida que o campus se torna cada vez mais diversificado, os alunos vislumbram a possibilidade de se conectar com outras pessoas e à própria universidade, criando forte identidade institucional. Uma possível consequência são menores índices de evasão.

Assim como os aspectos relacionados à aprendizagem e às atividades extracurriculares foram muito afetados, a pandemia vai deixar também um legado de perdas emocionais. A vida social é fundamental para os jovens, pois o amadurecimento ocorre pelo contato com os colegas em um processo no qual as semelhanças e diferenças forjam o caráter, permitindo que eles aprendam a ser autônomos e independentes. Os hormônios dos adolescentes e jovens os transformam em adultos e eles precisam se encontrar pessoalmente, pois a interação humana não pode ser codificada. As plataformas digitais não conseguem interpretar as sutilezas da linguagem corporal, as ambiguidades do contato visual fugaz e a perspectiva assustadora de deslizes sociais e afetivos em situações nas quais não é possível simplesmente se desconectar. O espaço acadêmico é propício para os jovens vivenciarem a transformação para a fase adulta, ganharem confiança e aprenderem a ser mais resilientes.

No retorno dos alunos de graduação à USP, três aspectos devem ser amplamente considerados.

1. Muitos alunos talvez se sintam desconfortáveis e apreensivos. Tal preocupação é ainda mais relevante para os ingressantes de 2020 em diante, os quais têm pouca ou nenhuma intimidade com o espaço universitário. Especialmente para estes estudantes, além das dúvidas associadas à pandemia, haverá outras ansiedades e dificuldades decorrentes de interações com novos colegas de vários estratos sociais, aulas em formato diferente e ampla liberdade acadêmica, com a qual eles não estão acostumados. Todavia, a melhor maneira de os alunos enfrentarem a nova situação é se expondo a ela, pois eles saberão criar repertórios e estratégias para lidar com os obstáculos. À USP, cabe exigir o uso de máscara e a vacinação ou testes de identificação da covid, assim como preparar suas instalações (salas de aula, laboratórios, anfiteatros, restaurantes, dentre outras) da melhor maneira possível para que os alunos tenham a confiança de que serão acolhidos em um ambiente seguro.

2. Embora os conteúdos tenham sido ministrados regularmente, a despeito das dificuldades encontradas por alunos e professores, a formação acadêmica foi prejudicada com o ensino remoto, particularmente nas disciplinas que exigem componentes práticos ou presenciais, como estágios. Além disso, a experiência universitária não pôde ser desfrutada de maneira integral. Considerando a expressiva riqueza de opções disponíveis em uma instituição de pesquisa como a USP, o afastamento dos alunos do campus universitário por dois anos consiste em perda de oportunidades com impacto na formação plena dos estudantes de graduação, particularmente daqueles com maior vulnerabilidade social. Portanto, estratégias criativas e operacionalmente factíveis deverão ser formuladas pelas Comissões de Graduação das unidades para compensar essas lacunas na formação dos estudantes no que se refere a conteúdos e experiências extracurriculares, em que pesem os encargos curriculares dos alunos nos próximos semestres. Dada a já elevada sobrecarga didática dos docentes, exacerbada pela falta de contratações e aposentadorias nos últimos anos, a Reitoria poderia colaborar com as unidades disponibilizando vagas de professores temporários para a imediata criação de disciplinas eletivas de caráter experimental.

3. Apesar dos problemas com o ensino remoto, houve alguns dividendos. Por exemplo, o fato de as aulas serem gravadas tornou viável para os alunos a revisão de trechos em que havia dúvidas ou nos quais os conteúdos não tinham sido apreendidos integralmente. Com o retorno das aulas presenciais, esta possibilidade deixa de existir, exceto se elas forem gravadas. Entretanto, nossas salas de aula não são adaptadas com tecnologia de som e vídeo para esta nova perspectiva. Embora seja um investimento custoso, talvez os ganhos o justifiquem. Não se trata de um modelo de ensino híbrido com transmissão ao vivo das aulas para alunos que não estejam presentes na universidade, pois isso caracterizaria o ensino remoto. Por uma questão de princípio, em uma instituição de pesquisa as aulas, em nível de graduação, devem ser presenciais.

A pandemia tem gerado efeitos desastrosos, mas a ciência brasileira e o sistema público de saúde continuam a demonstrar sua relevância, robustez e pujança. No caso específico da USP, as rotinas foram mantidas de acordo com as limitações impostas pela crise sanitária e aprendemos a empregar sistemas de comunicação remota muito eficientes, com os quais defesas de teses, seminários e reuniões puderam ser realizados de forma bastante adequada. É bem provável que tais ferramentas continuem a ser utilizadas, talvez em modo híbrido. Entretanto, ficou claro que as plataformas virtuais são pouco eficientes em congressos científicos, pois inviabilizam a indispensável interação física entre as pessoas. O mesmo vale para o ensino de graduação, porque a atividade intelectual, a postura crítica e a mentalidade reflexiva, importantes para levantar dúvidas e gerar hipóteses, somente podem ser desempenhadas em toda a plenitude quando os alunos vivenciam o ambiente universitário. A USP é uma universidade de pesquisa e, como tal, não pode cumprir com êxito sua missão sem conviver em suas instalações com alunos de graduação inquietos, ousados e dispostos a lidar com desafios de naturezas diversas.

Por Jornal da USP

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